7 de janeiro de 2014

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AFINIDADE...

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,
 delicado e penetrante dos sentimentos. 
O mais independente. 
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,
 as distâncias, as impossibilidades. 
Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma 
a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, 
no exato ponto em que foi interrompido. 
Afinidade é não haver tempo mediando a vida. 
É uma vitória do adivinhado sobre o real.
Do subjetivo sobre o objetivo.
Do permanente sobre o passageiro.
Do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro. 
Mas quando existe não precisa de códigos 
verbais para se manifestar.
Existia antes do conhecimento, irradia durante 
e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.
O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e claro diante de alguém com quem você tem afinidade. 
Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos 
mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.
É ficar conversando sem trocar palavra.
É receber o que vem do outro com aceitação 
anterior ao entendimento. 
Afinidade é sentir com.
Nem sentir contra, nem sentir para, 
nem sentir por, nem sentir pelo.
Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.
Quantos amam e sentem para o ser amado,
 não para eles próprios. 
Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.
É olhar e perceber.
É mais calar do que falar.
Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar. 
Afinidade é jamais sentir por.
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.
Compreende sem ocupar o lugar do outro.
Aceita para poder questionar.
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar. 
Só entra em relação rica e saudável com o outro, 
quem aceita para poder questionar.
Não sei se sou claro: quem aceita para poder 
questionar, não nega ao outro a possibilidade de ser 
o que é, como é, da maneira que é.
E, aceitando-o, aí sim, pode questionar, 
até duramente, se for o caso.
Isso é afinidade.
Mas o habitual é vermos alguém questionar porque 
não aceita o outro como ele é. Por isso, aliás, questiona.
Questionamento de afins, eis a (in) fluência.
Questionamento de não afins, eis a guerra. 
A afinidade não precisa do amor. 
Pode existir com ou sem ele.
Independente dele. 
Os quilômetros de distância.
Na maneira de falar, de escrever,
 de andar, de respirar.
Há afinidade por pessoas a quem apenas vemos passar, por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos.
Há afinidade com pessoas de outros continentes 
a quem nunca vemos, veremos ou falaremos. 
Quem pode afirmar que, durante o sono, 
fluidos nossos não saem para buscar sintomas com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, 
com amores latentes, com irmãos do não vivido? 
A afinidade é singular, discreta e independente, 
porque não precisa do tempo para existir.
Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem 
se estabeleceu o vínculo da afinidade!
No dia em que a vir de novo, você vai 
prosseguir a relação exatamente do ponto em que parou.
Afinidade é a adivinhação de essências não
 conhecidas nem pelas pessoas que as tem. 
Por prescindir do tempo e ser a ele superior, a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente.
Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós, 
para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes. 
Sensível é a afinidade.
É exigente, apenas de que as pessoas evoluam parecidas.
Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento
 sejam do mesmo grau, porque o que define a 
afinidade é a sua existência também depois. 
Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo 
ou amado, e anos depois encontra com
 saudade ou alegria, mas percebe que não vai 
conseguir restituir o clima afetivo de antes, 
é alguém com quem a afinidade foi temporária.
E afinidade real não é temporária. É supratemporal.
Nada mais doloroso que contemplar afinidade morta, 
ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade.
A pessoa mudou, transformou-se por outros meios.
A vida passou por ela e fizeram tempestades, 
chuvas, plantios de resultado diverso. 
Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais 
esperanças, é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, quantos das impossibilidades vividas. 
Afinidade é retomar a relação do ponto em 
que parou, sem lamentar o tempo da separação.
Porque tempo e separação nunca existiram.
Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida,
 para que a maturação comum pudesse se dar.
E para que cada pessoa pudesse e possa ser,
cada vez mais, a expressão do outro sob a forma 
ampliada e refletida do eu individual aprimorado.

__________Arthur da Távola

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