19 de novembro de 2012

A memória afetiva é um poema de amor ...



"Sei que passar um café usando coador de pano não tem mistério algum, mas era algo inédito para mim e mesmo o óbvio costuma ter sutilezas que podem fazer diferença. Concluído o processo, 
eu que já bebi incontáveis litros de café ao longo da vida, saboreei aquele com direito à emoção de primeira vez. 
Há anos eu não bebia um café tão gostoso. 
Não, não foi porque eu fiz. 
Foi por aquilo que ele me fez acessar.(...)

A memória afetiva é um poema de amor 
que realça o sabor de tudo.

A vida pode ficar muito pequena quando olhamos para ela com o olhar estreito. O tédio acontece quando nos afastamos da capacidade de nos encantarmos com as coisas mais simples do mundo. De nos abrirmos às novidades. De inventarmos moda. 
De fazermos diferente. De aprontarmos artes capazes de 
deixar o coração respirar macio no meio de tanta aspereza.
 O tédio acontece quando nos afastamos da capacidade de buscar a ludicidade possível nos detalhes que nos acostumamos a chamar de banais. De nos desprogramarmos. De nos livrarmos um pouco dos nossos roteiros para ousar alguns improvisos.

Quando eu comentei com algumas pessoas a minha experiência com o coador de pano, houve gente que não entendeu nada: 
“Você está maluca? Esse troço dá muito trabalho!” 
Não sentiram a poesia. O simbolismo. A metáfora.
 Não perceberam que o que dá trabalho mesmo é viver sempre 
do mesmo jeitinho. Pois eu quero mais dessa maluquice 
que me ajuda a reinventar maneiras de estar aqui. 
Porque para se estar aqui com um pouco que seja 
de conforto na alma há que se ter riso. 
Há que se ter fé. 
Há que se ter a poesia dos afetos.
 Há que se ter um olhar viçoso.
 E muita criatividade."

_________Ana Jácomo

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